segunda-feira, 17 de julho de 2017

ETERNAMENTE CAMPEÕES DA EUROPA!


Parece que foi ontem. Está tudo tão presente na minha memória, as vivências desse dia. Já passou um ano, desde o dia da conquista e, voilá, não tivemos feriado.
Somos campeões da Europa! Ainda me apetece elevar estas palavras até à exaustão. Recordo que sarei uma ferida que tinha, desde 2004.
Ainda há pouco, ouvi um emigrante português, em França, dizer que, em termos desportivos, os franceses já respeitam Portugal. Foi música para os meus ouvidos. Melhor que Céline Dion.
Viro-me para os nossos emigrantes. Tantas pessoas do meu coração estão fora do meu país. Pessoas que não estão nas suas terras, que lutam por uma vida melhor, e que são embaixadoras do país de Camões.
Levando, dignamente, o nome de Portugal aos quatro cantos do mundo e levantando, orgulhosamente, a bandeira do nosso país, os nossos valentes tiveram uma alegria imensa, no dia 10 de Julho de 2016. A vitória também é vossa!
Nessa noite mágica, cantei “A Portuguesa”, num bunker, abraçado a amigos. Nós não acreditávamos. Fernando Santos, desculpa! Um comandante como nunca tivemos.
Ederzito António Macedo Lopes, não estás a passar os melhores momentos na cidade de Lille mas, força, tu és um herói e nunca te esquecerei. Aquele remate... Que “pontapé-canhão”! Aliás, desconfio que a rede da baliza do Stade de France ainda abana. Sabe-me tão bem ver o teu remate glorioso, como comer foie gras de pato confeccionada pelo Chef Pedro Lemos.  
Eder, deves ter guardado as chuteiras da final como recordação, e eu ainda calço o chinelo que saiu do meu pé direito, nos festejos do teu golo. Fica aqui uma promessa: se algum dia me cruzar contigo, e tiver calçados os chinelos da final, vou entregar-te uma caneta e vais assiná-los. 
O “nosso” bunker continua de portas abertas para receber a equipa das “quinas”. Se vierem, comemos uma vitela assada, damos uma volta à vila de Vieira do Minho e passamos na freguesia do Mosteiro (a minha filha quer mostrar ao Eder a potência do remate que uma menina de três anos já consegue ter. Ah! E assina os meus chinelos).
Não sei se estou a salientar, exageradamente, uma noite que marcou a minha vida, mas não interessa. Sabem uma coisa? Passei a dormir melhor e o Eder é o maior!

Comentário na Rádio Alto Ave e jornal Geresão (10/07/2017). 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

UMA AVENTURA CHAMADA AUSTRÁLIA


Antes de iniciar uma espécie de relato de uma aventura no país de Nicole Kidman, não posso deixar de anotar o meu contentamento pela jogada de Theresa May ter corrido tão bem como o remate do francês Gignac, no minuto 91, no jogo contra Portugal.
Depois de agarrar no globo terrestre e colocá-lo a girar, fechei os olhos e o dedo indicador da mão direita fixou algures no Oceano Pacífico. "Simplifiquei", optando pela Austrália.
Passados uns meses, encontro-me no Porto. É segunda-feira! Faço escala em Frankfurt, Singapura e Kuala Lumpur, chegando, por fim, a Sydney. É quarta-feira!
Logo após de explicar a dois polícias australianos o que vinha fazer a um dos seis maiores países do mundo, coloquei os dois pés no exterior do aeroporto e, um pouco atordoado à procura do comboio, um homem com mais de 1,82 metros de altura vem ter comigo e pergunta-me se preciso de ajuda. Pensei: "Isto é a Austrália! Povo acolhedor".
Em pouco tempo, cheguei ao centro de Sydney. Não sentindo os efeitos do jet lag, pousei a mala no alojamento, coloquei uma mochila às costas e iniciei a minha viagem terrestre. Com a energia no máximo, fazendo-me lembrar o jogo Street of Fighter, dirijo-me à histórica Ponte da Baía de Sydney. Certamente recordada por todos, aquando da passagem de ano. Dei seis voltas a um dos pilares da ponte, para aproveitar uma vista deslumbrante da cidade.
Depois, passei no bairro histórico The Rocks e avancei até à Ópera de Sydney. Aproximo-me e as selfies de milhares de asiáticos quase que encobrem o edifício. Isto, dependendo da perspectiva. Mas o que interessa, realmente, é que fiquei estarrecido pela grandiosidade e beleza da Ópera de Sydney. Pardon, Torre Eiffel, mas passaste para número dois.
Com 10 quilómetros nas pernas, pensei em parar, mas fui ainda visitar a Torre de Sydney, que me permitiu ver a força nocturna da cidade. Aqui, conheci um indiano que me deu o primeiro sinal de que actualmente, na Ásia e Oceânia, Portugal é sinónimo de Cristiano Ronaldo.
No dia seguinte, desbravei vários espaços verdes e fui à Galeria de Arte de Nova Gales do Sul. Entrei, vi várias exposições de arte, nomeadamente, australiana, e, depois, para minha grande surpresa, vi obras de Cézanne, Monet, Vincent van Gogh e Picasso.
Estava na hora de partir para as Montanhas Azuis, que ficam a cerca de 60 quilómetros de Sydney. O que fui lá fazer? Explorar uma região de grande beleza, e, se possível, correr 100 quilómetros no ‘Ultra-Trail Australia’. Era uma prova do circuito mundial. Consegui! Arrancaram cerca de 1275 atletas e terminei na posição 375, com um tempo inferior às 16 horas.
No "meu quartel-general", estavam mais três japoneses e um brasileiro. A educação, a cortesia e a força mental do povo japonês são surpreendentes. Só espero que, na próxima vez, o dedo indicador da mão direita "escolha" o país de Murakami. 
De regresso a Sydney, tinha de cumprir um "requisito obrigatório" para quem visita este país, e que é ir ver coalas e cangurus. No jardim zoológico de Taronga, fiquei a saber que as probabilidades de encontrar um coala a dormir são as mesmas que o Ronaldo marcar uma grande penalidade.
Antes de abandonar o país, visitei a famosa praia de Bondi. Sem avistar tubarões, foram os surfistas que comandaram. De facto, este é um país que tem uma ligação especial com o mar; que preserva a memória do seu passado e das suas gentes.
Em termos gastronómicos, a luminosidade é menor. Não há problema! Repete-se o prato com a carne da raça Angus.
Num dos países mais apaixonantes do mundo, é fácil aprender-se a amá-lo.
Na viagem de regresso, "mergulho" em Singapura e emociono-me no aeroporto de Frankfurt, depois de terminar a leitura do livro «A Estrada», de Cormac McCarthy.

Comentário na Rádio Alto Ave e jornal Geresão (12/06/2017).

MACRON: A VITÓRIA QUE TROUXE "ALÍVIO" AOS FRANCESES


Ainda na ressaca dos apertos e saltos dados nos festejos do golo de Jiménez, começo a escrever algumas notas sobre as eleições presidenciais francesas.
Um pianista, sem partido, tornou-se Presidente de França. Um dos maiores burburinhos foi criado devido à idade de Emmanuel Macron, como se a idade fosse um atestado, nomeadamente, de inteligência. É algo tão admirável como as palavras de Saul Bellow, no livro «Herzog»: «(...) Como se cambaleando pudesse recuperar o equílibrio ou admitindo um grão de loucura pudesse recuperar a razão».
Aliás, tanto ruído e o ex-ministro da Economia nem entrou para o pódio actual dos chefes de Estado mais jovens à frente de um país.
Com mais dúvidas do que certezas, o resultado foi, acima de tudo, um alívio para os cidadãos do país de Victor Hugo. Este alívio está bem expresso nas palavras de um eleitor, ditas, curiosamente, no dia anterior às comemorações do fim da II Guerra Mundial: a Marine Le Pen é como os franceses que “colaboraram com os nazis, durante a Segunda Guerra Mundial”. Bem, no mínimo, palavras aterradoras. 
Macron não terá vida fácil. Enfrentará um duro teste, no próximo mês, com as eleições legislativas. Terá a árdua tarefa de conquistar uma maioria parlamentar para avançar, sem sobressaltos, com o seu programa. Dos seus principais objetivos, constam reduzir a despesa, em cerca de 60 mil milhões de euros, e implementar a controversa reforma da lei do trabalho.
Numa economia quase estagnada, e com uma taxa de desemprego a rondar os 10%, veremos se o pró-europeu Macron irá fortalecer o eixo franco-alemão. Isto, numa Europa marcada pelo nacionalismo e populismo, e pela saída do Reino Unido da União Europeia.
Numas eleições fora do comum, onde os partidos instituídos foram claramente derrotados, devemos perceber todos os sinais. Já anotou também Bellow, no livro «Herzog»: «Um dos trabalhos mais difíceis da vida é simular que não se percebe o que se percebeu logo».
Em relação a Marine Le Pen, é assustador saber que, numa sociedade multicultural, cerca de onze milhões de pessoas confiaram o seu voto numa candidata da extrema-direita. De realçar que Trump, Putin e Erdogan continuam com uma vaga na mesa.
Durante cinco anos, ainda se vai “respirar de alívio”. Para o bem de todos, ou quase todos, espero que o mandato de Macron não seja um falhanço, porque, se for, tenho a terrível sensação de que Le Pen ficará com as portas escancaradas do Palácio do Eliseu.

Comentário na Rádio Alto Ave e jornal Geresão (10/05/2017).

quinta-feira, 4 de maio de 2017

VIVA A LIBERDADE!


«(...) Nenhuma experiência, por maior que seja, nenhuma serenidade, embora perfeita, nenhum discernimento, por mais forte, impedirão, aparentemente, que tentemos uma última vez a nossa sorte.» (Imre Kertész)
Se, no ano passado, também no mês da Revolução dos Cravos, citei poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen e anotei, nomeadamente, as portas que Abril abriu, agora irei basear-me numa obra poderosa de Imre Kertész para elevar a coragem daqueles que combateram a ditadura, como o ilustre vieirense Coronel Jaime Abreu Cardoso, até ao limite das suas forças.
Todos nós somos embaixadores da literatura. Deste modo, não é ousado fundamentar-me numa obra de um escritor húngaro, que foi Nobel da Literatura, para impulsionar palavras enquadradas no Dia da Liberdade de Portugal.
Quantos portugueses foram crucificados num país fechado sobre si mesmo? Quantos portugueses foram amordaçados na busca de um país justo? Quantos portugueses foram detidos na busca de um país livre? Mas a coragem dos nossos heróis nunca diminuiu, os seus sonhos abrandaram mas nunca desapareceram, mesmo em condições terríveis. Como escreveu Kertesz, na obra «Sem Destino»: «(...) Os muros estreitos das prisões não conseguem reprimir as asas da imaginação.»
Sob a orientação de um ditador, pensavam que conseguiriam cortar o sonho de um povo! 
A podridão humana na sua plenitude máxima: Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), depois Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) e, por fim, Direcção-Geral de Segurança (DGS).
Tristes memórias. Prisões Políticas da Cadeia do Aljube, do Forte de Peniche, da Colónia Penal de Cabo Verde, no Tarrafal, também conhecido como “Campo da Morte Lenta” e dos Redutos Norte e Sul do Forte de Caxias.
Qual seria o sentimento de ser apanhado na “rede”? Perdido? Anotou Kertész: «Uma espécie de torrente em redemoinho, pastosa e em ebulição, arrastava-me e engolia-me (...). Eu nem sabia para onde me virar, na precipitação, e só me ocorre que, durante esse tempo, me apetecia rir um pouco (...) devido ao espanto e à confusão de me ver no meio de uma peça insensata, em que desconhecia por completo o meu papel.»
Uma enorme revolta manifesta-se, quando se é triturado, apenas e só, por se procurar a liberdade. Uma enorme revolta leva-nos quase a força toda, leva-nos ao limite, quando sabemos que, na humanidade, temos de ser heróis perante tantas adversidades.
Como se cai neste poço? Como é que tantos portugueses lutadores pela liberdade caíram neste poço quase sem fundo? Parece tão fácil. Apontou Kertész: «[Ele] (...) estava curioso em saber como é que eu “tinha caído aqui”, e disse-lhe: - Muito simples. Fizeram-me descer do autocarro.»
        Contra quase tudo, contra quase todos! Tantas injustiças, sem misericórdia, tudo era possível apenas e só para se manter acesa a chama da ditadura, a chama da crueldade humana. Chama essa que, um dia, haveria de se extinguir. Referiu Kertész: «Só então me deixei cair sobre a almofada, aliviado, só então alguma coisa muito lentamente se soltou em mim, e só então pensei - talvez, pela primeira vez, a sério - na liberdade.»

            Comentário na Rádio Alto Ave e jornal Geresão. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

"MILAGRES E MILAGREIROS", EM TERRAS LUSAS


Inspirando-me numa frase de Jorge Sampaio, temos de acreditar que há mais vida para além da “coragem” de Carlos Costa e da declaração milagreira de Teodora Cardoso.
O governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, teima em não pedir ajuda, ou melhor, em não se demitir, apesar de estar perdido numa floresta densa, onde não entra um único raio de sol.
Para auxiliar a sua orientação, até lhe podia oferecer, sem amizade mas com apreço, uma bússola, mas não lhe vejo outra alternativa senão içar uma bandeira branca, “impelindo-o” a ter a seguinte reacção: “Rendo-me, povo português”.
No livro «Correcções», o americano Jonathan Franzen lança uma frase irónica que cai como uma luva, no homem natural da freguesia de Cesar: «Como o mundo parecia empenhado em torturar um homem virtuoso».
Em relação a Teodora, não a que foi esposa de Justiniano mas sim a presidente do Conselho de Finanças Públicas, meio país (só para ser poupado) estremeceu quando ouviu: «Até certo ponto, houve um milagre no défice». Oh, diabo!
Influenciada pelo facto de usar uns óculos tão ou mais irreverentes como os que usava a Irmã Lúcia, e sabendo que o Papa virá, em breve, ao Santuário de Fátima, Teodora Cardoso ergueu a sua Fé e anunciou que testemunhou um “milagre”, justificando, assim, um encontro com Sua Santidade. Já agora, se alguém souber de um quarto livre, em Fátima...
Mas nem tudo foi mau, porque o nosso Marcelo saiu a terreiro (um minuto e vinte e cinco segundos depois da declaração de Teodora) para nos “defender”.
E, já agora, “milagre” era se, uma vez que em 2015 foi candidata ao Prémio Nobel da Economia, o conseguisse vencer.
Enquanto a poeira não assenta, valha-nos o facto de o Tribunal da Relação de Lisboa ter mandado recolher o livro do arquitecto Saraiva. Obra essa tão profunda e magnânima como o último livro de Cavaco Silva, ou o livro «Nascemos para ser felizes», do cantor Emanuel. 
A verdade é que, nos últimos tempos, não é necessário sair de Portugal para assistir a caricatos episódios políticos que são tão próprios da América do Sul. Na falta do palhaço Tiririca...

Comentário na Rádio Alto Ave e jornal Geresão.

segunda-feira, 6 de março de 2017

COMO "DEITAR A JUSTIÇA AOS PORCOS"? PUTIN EXPLICA!

Apesar de ter muita vontade de abordar as primeiras medidas do mandato de Trump, opto por “tocar” num dos seus “amigos”. Isto porque há acasos que são mesmo marcantes.
No início do mês de Fevereiro, acabei de ler o livro «Ressurreição», do russo Tolstói, onde sobressai, nomeadamente, o sofrimento que um homem provocou a uma mulher, no século XIX, e passados poucos dias, fico aterrorizado ao ler uma notícia, no sítio do Diário de Notícias, com o título: «Putin assinou a lei. Violência doméstica já não é crime na Rússia».
Ora, no país onde cerca de 36 mil mulheres são agredidas, diariamente, pelos companheiros, e 26 mil crianças são espancadas, anualmente, pelos pais, aprova-se uma lei que descriminaliza alguns actos de violência doméstica. Poder-se-á dizer, tal como anotou Tolstói na referida obra, «deitaram a justiça aos porcos». 
Os defensores da nova lei sustentam que é uma maneira de proteger a tradição russa. Ah, pois! Claro que sim, meus senhores! Se bem que, para manter a tradição, a “fasquia esteja um pouco alta” visto que, no ano de 2010, um relatório das Nações Unidas aponta que cerca de 14 mil mulheres são assassinadas, todos os anos. E já nem abordo a violência psicológica, que parece ser inexistente para Putin e amigos.
A Rússia até pode voltar a ser uma potência económica mundial, mas este retrocesso civilizacional humilha e envergonha um país que valoriza tanto os direitos humanos como a Síria ou mesmo Angola. 
Depois disto, importa realçar as palavras do príncipe Nekhliúdov, na obra «Ressurreição»: «Quando se reconhece que há coisas mais importantes do que o humanismo (…), será sempre possível que cometamos crimes contra os seres humanos e não os consideremos culpados». 
É verdade que Portugal também tem um caminho a percorrer no combate à violência doméstica, mas, felizmente, nos últimos anos, a nossa realidade tem vindo a mudar, acima de tudo, desde que a violência doméstica se tornou um crime público. 
A nossa sociedade civil está mais sensibilizada para este tipo de violência, faltando, agora, educar os adolescentes e compreender, por vezes, a nossa justiça. Basta recordarmos que, no passado mês de Janeiro, o Tribunal da Relação de Évora determinou que, «Apertar o pescoço não é violência doméstica».
Sinto uma “espécie de náusea moral”, como referiu Tolstói na obra supracitada. Mas esta “náusea moral” ainda não terminou. Algumas horas antes de ler a tal notícia, no sítio do Diário de Notícias, deparei-me com uma frase atribuída a Manuel Maria Carrilho, que responde em tribunal por violência doméstica contra a ex-mulher, Bárbara Guimarães, e que é a seguinte: «Eu só bebia por amor à Bárbara e para diminuir a dose dela». Uma frase que tanto poderia figurar num romance de Tolstói, como num sketch do Gato Fedorento.

Comentário na Rádio Alto Ave, e jornais Geresão e Notícias de Vieira (09/02/2017).

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES, O LUTADOR SEM MEDO!

“Socialista, republicano e laico”, assim era Mário Soares. Um homem que nunca deixou de lutar pela liberdade e pela democracia. A sua enorme capacidade política e combatividade, características tão singulares, tornaram-no inesquecível.
O “pai da democracia”, como era apelidado, sonhou um país livre, e, sendo um homem corajoso e um verdadeiro estadista, lutou contra a ditadura de Salazar.
Ainda mais importante do que anotar que foi uma das personalidades mais marcantes do século XX, é destacar que é devido a Mário Soares, e a mais alguns cidadãos, que, hoje, posso escrever livremente. Que podemos viver em liberdade!
Arrisco-me a apontar que foi o político mais consensual.
Naturalmente, não faltaram momentos polémicos e duros, no seu percurso político. A descolonização foi um deles, assim como a divisão de Portugal, em resultado do Processo Revolucionário em Curso (PREC), mas que Soares conseguiu serenar.
Profundamente europeísta, levou um país fechado à integração europeia. A assinatura do tratado de adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia (CEE) é um dos acontecimentos que permanece na memória de todos os que o vivenciaram.
Fazendo inúmeras vezes equilibrismo em cima do arame, enfrentou opositores de grande respeito, como Álvaro Cunhal, Francisco Sá Carneiro ou Diogo Freitas do Amaral.
Não foi pessoa de se deixar acomodar, procurando sempre manifestar a sua opinião, nem que tal não fosse do agrado do partido que fundou e do qual foi o primeiro líder - o Partido Socialista.
“(...) Num sítio tão frágil como o mundo”, como anotou a poetisa Sophia de Mello Breyner, atirou fósforos acessos para palheiros prontos a arder. E sofreu bastante, numa vida tão preenchida.
Um lutador que nem desarmou quando, nas presidenciais de 1986, partiu só com 8% dos votos nas sondagens. Acabou a presidente!
Há momentos que nunca esqueceremos. Seja o debate com Cunhal; o slogan “Soares é fixe”; as excitantes eleições contra Freitas do Amaral, ou montado numa tartaruga gigante, nas Seychelles.
Mário Soares nunca deixou de lutar e, raramente, abrandou. Os portugueses, estou certo, estão-lhe eternamente gratos. A sua memória perdurará.

Até sempre, Mário Soares, lutador sem medo!

Comentário na "Rádio Alto Ave", e jornais "Geresão" e "Notícias de Vieira" (10/01/2017).